Fotobiomodulação no cuidado oncológico
A fotobiomodulação utiliza laser vermelho e infravermelho em baixa intensidade para modular respostas celulares e teciduais. Diferentemente do laser cirúrgico, não corta nem remove tecido. Seu objetivo é produzir efeitos biológicos relacionados ao controle da inflamação, redução da dor e reparo da mucosa, de acordo com o comprimento de onda, energia, área tratada, frequência das sessões e momento de início.
No contexto oncológico, a fotobiomodulação deve ser compreendida como recurso de cuidado de suporte. Ela não substitui o tratamento oncológico, nem dispensa avaliação clínica odontológica. A indicação depende do tipo de tratamento antineoplásico, da fase do cuidado, do risco de complicações orais e dos objetivos definidos para cada paciente.
Mucosite oral e continuidade do tratamento
A mucosite oral é a condição com maior volume de evidências para uso da fotobiomodulação no cuidado oncológico. Diretrizes MASCC/ISOO recomendam protocolos específicos de fotobiomodulação para prevenção da mucosite oral em determinados cenários, especialmente em tratamentos de cabeça e pescoço e em condicionamento para transplante de células-tronco hematopoéticas.
A relevância clínica vai além da presença de feridas na boca. A mucosite pode causar dor intensa, dificuldade alimentar, necessidade de analgesia, risco de infecções e impacto na continuidade do tratamento oncológico. Por isso, a prevenção e o acompanhamento odontológico precoce são partes importantes do cuidado de suporte.
As diretrizes MASCC/ISOO atualizadas em 2020 consolidam a fotobiomodulação como uma das intervenções com respaldo para prevenção da mucosite oral em cenários clínicos definidos. A aplicação deve seguir parâmetros registrados e equipe treinada.
Prevenção, dor e reparo da mucosa
A fotobiomodulação pode ser planejada com diferentes objetivos clínicos. Em protocolos preventivos, o foco é reduzir a ocorrência ou a gravidade da mucosite antes que lesões extensas se instalem. Quando a mucosite já está presente, o objetivo pode incluir controle da dor, melhora do conforto oral e apoio ao reparo da mucosa.
Esses objetivos não devem ser tratados como uma única indicação genérica. A resposta clínica depende do momento de início, da área irradiada, da frequência das sessões e dos parâmetros técnicos utilizados. Por isso, o registro do protocolo e a avaliação da evolução clínica são essenciais para uma prática segura e reprodutível.
Indicação individualizada e registro clínico
Não existe um único protocolo de laser aplicável a todos os pacientes oncológicos. O planejamento deve considerar o diagnóstico oncológico, o tratamento em curso ou previsto, os sintomas, as condições da mucosa, o risco de mucosite, a presença de infecção, a capacidade de alimentação e a necessidade de comunicação com a equipe assistencial.
A documentação clínica deve incluir objetivo do cuidado, áreas de aplicação, parâmetros utilizados, frequência das sessões, resposta observada e orientações fornecidas. Essa organização é especialmente importante porque os estudos científicos utilizam diferentes combinações de comprimento de onda, energia, potência, tempo e pontos de aplicação.
Boca seca e alterações salivares
A fotobiomodulação também tem sido estudada como recurso complementar no cuidado de pacientes com boca seca, hipofunção salivar e alterações da saliva, especialmente após radioterapia de cabeça e pescoço. Alguns estudos investigam a aplicação do laser sobre glândulas salivares maiores, com o objetivo de estimular atividade glandular residual e aliviar sintomas.
Entretanto, os resultados ainda são heterogêneos e dependem de fatores como dose de radiação recebida pelas glândulas, tempo desde o tratamento, função salivar residual, medicamentos em uso e condição clínica do paciente. Por isso, a fotobiomodulação não deve ser apresentada como garantia de aumento do fluxo salivar, mas como uma possibilidade a ser avaliada dentro de um plano de cuidado mais amplo.
Segurança e limites da evidência
A fotobiomodulação é considerada um recurso bem tolerado quando indicada e aplicada de forma adequada, com parâmetros definidos e conhecimento do contexto oncológico. Ainda assim, segurança não significa uso indiscriminado. A avaliação deve considerar localização tumoral, fase do tratamento, mucosa irradiada, presença de lesões suspeitas e comunicação com a equipe responsável.
Um cuidado importante é evitar irradiação direta sobre área tumoral ativa, especialmente em câncer de boca ou em lesões com suspeita diagnóstica. Além disso, diferentes aplicações da fotobiomodulação não têm o mesmo nível de evidência. A prevenção da mucosite oral possui respaldo mais consistente em diretrizes, enquanto alterações salivares, dor e reparo tecidual exigem avaliação individual e leitura cuidadosa dos estudos disponíveis.
Da pesquisa à prática clínica
A incorporação da fotobiomodulação à Odontologia Oncológica exige mais do que disponibilidade do equipamento. Requer formação técnica, compreensão das diretrizes, seleção adequada dos casos, registro dos parâmetros e integração com o tratamento oncológico.
Na prática clínica, o objetivo não é apresentar o laser como solução isolada, mas como parte de um cuidado odontológico planejado. Quando bem indicado, ele pode contribuir para prevenção de complicações, conforto, funcionalidade oral e continuidade do cuidado compartilhado.
Referências científicas principais
- Elad S, Cheng KKF, Lalla RV, et al. MASCC/ISOO clinical practice guidelines for the management of mucositis secondary to cancer therapy. Cancer. 2020;126(19):4423-4431. doi:10.1002/cncr.33100
- Zadik Y, Arany PR, Fregnani ER, et al. Systematic review of photobiomodulation for the management of oral mucositis in cancer patients and clinical practice guidelines. Supportive Care in Cancer. 2019;27:3969-3983. doi:10.1007/s00520-019-04890-2
- Hong CHL, Gueiros LA, Fulton JS, et al. Systematic review of basic oral care for the management of oral mucositis in cancer patients and clinical practice guidelines. Supportive Care in Cancer. 2019;27:3949-3967. doi:10.1007/s00520-019-04848-4
- Parra-Rojas S, Velázquez-Cayón RT, Ciortan-Pop ME, Martins MD, Cassol-Spanemberg J. Preventive photobiomodulation for chemotherapy-induced oral mucositis: a systematic review of randomized clinical trials. Biomedicines. 2025;13(2):268. doi:10.3390/biomedicines13020268
- Rojas G, Escalante-Parra R, Duarte A, et al. Photobiomodulation for the treatment and prevention of chemotherapy- and/or radiotherapy-induced oral mucositis in cancer patients: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials published in the last six years. Supportive Care in Cancer. 2026;34:515. doi:10.1007/s00520-026-10729-4
Fotobiomodulação no cuidado oncológico
Atendimento odontológico domiciliar em Fortaleza, com indicação individualizada e comunicação integrada à equipe assistencial.
Agendar avaliação